27 | 10 | 1999
Procuram-se prefeitos, prefeitos mesmo
Por Roberto Pompeu de Toledo

Boa parte da aflição dos brasileiros é municipal. Eis uma verdade freqüentemente esquecida, num país rendido ao sonho (e à ilusão) federal. Quase 80% dos brasileiros vivem em cidades. Grande parte deles, em grandes cidades. E no entanto as questões municipais, da limpeza das ruas à conservação dos monumentos, das opções de transporte coletivo ao horário dos parques, passando pelo trânsito, os buracos no asfalto e a coleta de lixo, para não falar na segurança e na poluição, questões que em parte também são municipais, ficam relegadas a segundo plano, esmagadas pela opção preferencial pelos pomposos megatemas – as emendas constitucionais, as reformas, a disputa entre monetaristas e desenvolvimentistas.

Abrem-se os principais jornais, e que se encontra na primeira página? A decisão de ontem do Congresso. A viagem do presidente. A menos que surja um caso de proporções descomunais, como o escândalo da Câmara de São Paulo, os assuntos de política municipal são relegados às páginas internas, lá longe. O federal nos esmaga. Resultado: condenam-se as cidades, o espaço onde verdadeiramente se vive, onde se come, se dorme, se ama e se odeia, a afundar mais ainda, pela desatenção, no processo de degradação que já as vitima.

Estas considerações vêm a propósito de uma informação publicada pela competente colunista Dora Kramer, do Jornal do Brasil, na última terça-feira. Tratava-se de um plano do ex-governador Leonel Brizola. As principais figuras da oposição, como Luís Inácio Lula da Silva, Ciro Gomes, Miguel Arraes e o próprio Brizola, se candidatariam a prefeito no ano que vem – Lula em São Paulo, Ciro em Fortaleza, Arraes no Recife, Brizola no Rio de Janeiro. Formariam assim, nas palavras da colunista, traduzindo o pensamento de Brizola, “uma base de poder estruturada para que, numa próxima etapa, a esquerda pudesse almejar com chance à Presidência da República”.

Ao desleixo com relação às cidades, em especial as maiores, soma-se o escárnio. A conquista do poder municipal, no plano de Brizola, vira mero trampolim para o federal. Claro que isso é tão velho como a política, mas aqui aparece em toda sua crueza, explicitado até as vísceras. A cidade é pouca coisa, território das miudezas. E o cargo de prefeito uma chateação a aturar enquanto não se consegue algo melhor. Na verdade Brizola não está sozinho. Grande parte dos políticos pensa assim, e mais pensa assim quanto mais destacado e influente for.

Deseja-se outro exemplo? Fernando Collor de Mello. Ele se diz candidato a prefeito de São Paulo. Que sabe Collor de São Paulo? Se o soltam na Avenida Paulista, não conseguirá dizer que lado vai para o Pacaembu e que lado para o Paraíso. Que gosto, que paciência tem para as questões municipais? A má-fé começa na encenação da suposta candidatura. Collor finge morar em São Paulo. Invoca o testemunho de um amigo, o empresário Georges Gazale, que diz tê-lo como hóspede em sua casa. Se é preciso invocar o testemunho de alguém, é porque não está muito clara nem mesmo a condição de morador. A candidatura é mera jogada, se não for uma farsa.

Num caso como no outro, no de Brizola como no de Collor, configura-se o desrespeito às cidades. No entanto há, ou ao menos houve, um tipo diferente de homem público – um tipo que revelava vocação para o cargo de prefeito. Que parecia satisfeito e realizado no cargo, e não apenas à espera de outras oportunidades. Não por acaso, eles formam a classe dos grandes prefeitos, aqueles dos quais as cidades não esquecem. Pereira Passos, no Rio, foi um deles. Prefeito ao tempo do presidente Rodrigues Alves (1902-1906), Pereira Passos foi quem rasgou a Avenida Central, atual Rio Branco, e construiu o Teatro Municipal, entre outras iniciativas que deram nova feição à cidade.

Prestes Maia, em São Paulo, foi outro. Prefeito duas vezes (1938-1945 e 1961-1965), abriu avenidas, projetou monumentos e introduziu um plano viário que até hoje define as linhas mestras da circulação na cidade. Pensa-se num prefeito de São Paulo, e Prestes Maia vem à mente. Concorde-se ou não com suas concepções, é um divisor de águas. O último representante dessa estirpe, entre os prefeitos de capitais, talvez seja Jaime Lerner, que, ao longo de três mandatos (1971-1975, 1979-1983, 1989-1992), imprimiu a Curitiba a face que ostenta hoje. Lerner virou governador, mas é ainda, arquetipicamente, “o” prefeito.

Aproxima-se o ano de eleições municipais, e muito se vai ler e ouvir que em São Paulo se travará uma prévia da eleição presidencial, que em Belo Horizonte estarão em jogo os planos do governador ou que em Porto Alegre se vão definir as pretensões de sabe-se lá quem. A febre federal atacará com força, contaminando, diminuindo e talvez engolindo o debate municipal. É pena. Só marginalmente se falará na limpeza das ruas, nos ônibus, nos parques, ou no problema crucial e decisivo – embora poucos se tenham dado conta disso – de como embelezar as cidades.