Guarde o nome
Por Arthur Dapieve

Amy Winehouse chama os grandes pelo prenome. Seu primeiro álbum, lançado na Grã-Bretanha em 2003, intitulava-se “Frank”. O tal era brevemente mencionado na letra de separação de “Take the box”: “O sutiã Moschino que você me comprou no Natal passado/ Ponha na caixa/ Frank está aqui e eu não ligo.” Em “Rehab”, faixa de abertura do álbum “Back to black” (lançado mês passado no Brasil, pela Universal), ela avisa: “Eles tentaram me mandar para a reabilitação, eu não vou vou vou/ Prefiro ficar em casa com o Ray”.

Amy Winehouse abriga a birita no sobrenome. Entre “Frank” e “Back to black”, esta londrina branquela de 23 anos atraiu a atenção tanto pela voz inacreditavelmente negróide e curtida quanto pela capacidade de se exceder no álcool e armar barracos. Quando seu empresário sugeriu que ela fosse se desintoxicar numa clínica, foi dispensado, daí “Rehab”. Há pouco tempo, dias antes de ela ganhar o Brit Award de melhor cantora, o vocalista e guitarrista Luke Pritchard, dos Kooks, se aproximou só para dizer que tinha gostado do novo CD, e Amy, sem mais nem menos, mandou ele fazer coisas esquisitas com o rabo.

Tem personalidade, a moça. Ela conseguia agradecer, no encarte de “Frank”, a Sinatra, Ray Charles, Duke Ellington, Sarah Vaughan, Dinah Washington e Beastie Boys, para nomear apenas alguns, sem nem se deixar esmagar pelas referências nem desonrá-las. Não constava da lista outra voz familiar sua, a de Billie Holiday. Natural, aliás, que uma das maiores cantoras da época de ouro do jazz – e, entre as maiores, a de estilo mais peculiar – tanto fascine Amy, Madeleine Peyroux ou Corrine Bailey Rae, sem falar noutras, menos novas, como Nicolette e Shara Nelson, que gravaram com o Massive Attack nos anos 90.

Os agradecimentos do platinado “Frank” indicavam que o disco era jazzístico a ponto de chupar a melodia de “Lullaby of Birdland” no refrão de “October song”, mas também tinha toques inteligentes de rhythm’n'blues e hip hop. Nada disso garantiria a qualidade se não fossem as letras confessionais, argutas e/ou sarcásticas de Amy. Como a da adorável “Fuck me pumps”, retrato da garota que freqüenta as boates com uma única meta: “Nunca perde uma noite, porque seu sonho na vida/ É ser a mulher de um jogador de futebol/ Você não gosta de boleiros/ É o que diz/ Mas você não se importaria com um milionário”. É fascinante como Amy brinca com a letra, qual Blossom Dearie, qual menina (cruel).

As referências são outras no recém-lançado “Back to black”, de título auto-explicativo. Amy decidiu fazer um disco de soul. “Não queria louvar demais o jazz, de novo”, declarou. “Estava cansada da complicada estrutura de acordes e queria algo mais direto. Vinha escutando muitos grupos de cantoras dos anos 60 e queria simplificar o som.” Dreamgirls? É o cacete, diria, com sotaque cockney, esta filha de taxista e farmacêutica, sobrinha de melômanos. Amy não emula a época, ela atualiza o eterno: Supremes, Marvelletes, Martha Reeves + The Vandellas. Faz até pensar numa Aretha Franklin pálida e anoréxica.

Claro, não há novidade nisso. A história da música anglo-irlandesa da década de 60 para cá pode ser contada em seis palavras: cabeludos, brancos, soando, como, bluesmen, negros. Jagger, Van Morrison, Winwood, Bobby Gillespie etc. O mesmo pode ser dito da porção mulher das ilhas, em sete: louras, britânicas, tirando, onda, de, soulwomen, americanas. Afinal, Dusty Springfield (que gravou em 1969 um incendiário “Dusty in Memphis” nos estúdios da Stax) é a avó espiritual de Joss Stone (que gravou em 2003 um impressionante “The soul sessions” entre Miami, Filadélfia e Nova York). Só que Amy, muito a propósito, tem cabelos pretos. Alguns homens preferem as morenas. Mais calor.

Amy recrutou Mark Ronson – filho do falecido guitarrista Mick Ronson, parceiro de David Bowie em álbuns como “Ziggy Stardust” – para dividir a produção com Salaam Remi, veterano de “Frank”. Ronson já havia trabalhado com, entre outras, Macy Gray, Lily Allen e Cristina Aguillera. A duplicação não implicou nenhum exagero, nem temporal (“Back to black” dura pouco mais de meia hora, quase vinte minutos a menos que seu antecessor) nem musical (as dez faixas são limpas, sem serem esparsas). Conforme planejara, Amy foi direto ao ponto. A sensacional “Rehab”, por exemplo, mal ultrapassa os três minutos, na melhor tradição da música pop, e não sucumbe ao peso das sessões de sopros e de cordas.

Na verdade, tão boa quanto “Rehab” é a faixa seguinte, “You know I’m no good”, hino nacional de Amy Winehouse. A batida indolente, maliciosa, meio quebrada, e os metais pesados, à moda da Stax, emolduram o charme bandido do refrão, cantado pela garota que pôs chifres no namorado-quase-noivo: “Eu trapaceei comigo mesma/ Como eu sabia que faria/ Eu te disse que sou encrenca/ Você sabe que eu não sou boa coisa.” Diferentemente da maioria das cantoras de rhythm’n'blues americanas, Amy canta à vera, isto é, dá a cada frase o tom adequado, isto é, não berra monotonamente para mostrar que tem pulmões.

A ressaltar que um grande disco de soul, como “Back to black”, não seria um grande disco de soul se não houvesse um grande baixista de plantão: o americano Nick Movshon, ex-membro do grupo de funk Mighty Imperials e atualmente no alatinado Antibalas, toca em “Rehab”, “You know I’m no good” e noutras quatro faixas. Ele não toca em “Just friends”, homônima do standard de jazz composto por John Klenner e Sam M. Lewis. Não faz mal. Quem está no baixo com molho de reggae é o produtor Salaam Remi. Na canção, Amy provoca o amigo: “Nunca é seguro para nós/ Nem de noite, porque eu bebi”.

Honesta, a moça. Na tocante balada “Wake up alone”, espécie de e-mail aberto aos ouvintes, ela descreve os malabarismos para não pensar no ex: “Tudo bem de dia/ Me mantenho ocupada/ O bastante para não ter de pensar onde ele estará/ Fiquei tão cansada de chorar/ Então, ultimamente/ Quando me flagro, dou um 180º/ Fico acordada, limpo a casa, ao menos não estou bebendo/ Correndo por aí, assim, eu não tenho que pensar em pensar.”

Amy Winehouse colhe flores no próprio pântano e vende numa banquinha em Portobello. Sabe que não basta cantar bem, e Amy canta muitíssimo bem; o que conta pra valer é ter matéria-prima para cantar, e Amy compõe com tesão e sabedoria. Talvez pareça prematuro afirmar que uma menina chiliquenta de 23 anos possui uma obra. Não é não. Se ela morrer de cirrose amanhã, já terá feito algo de belo e útil dessa nossa existência miserável.