27 | 03 | 2009
“Como Desaparecer Completamente”
Por Arthur Dapieve

Aquele ali não sou eu. Eu vou aonde quero. Eu atravesso paredes. Eu flutuo pelo Canal do Mangue. Eu não estou aqui. Isso não está acontecendo. Eu não estou aqui. Antes de o Radiohead tocar “How to disappear completely”, diante dos meus olhos, nesta Praça da Apoteose, nesta sexta-feira 20 de março de 2009, os versos se materializam na cabeça. Eu não estou aqui. Estou em outro lugar. Aonde só a grande música pode me levar.

Entre efeitos de luz e alto-falantes no estado da arte, Thom Yorke, Ed O’Brien, Phil Selway, Jonny e Colin Greenwood atacam “The national anthem”. Atacam é verbo escolhido a dedo. As guitarras são sirenes que alertam para o bombardeio tocado pelo baixo e pela bateria. Não há abrigo possível. É uma das minhas favoritas. Parece “Whole lotta love”, do Led Zeppelin. Parece “Bullet the blue sky”, do U2. Só que melhor.

Nada havia me preparado para isso. Em “Kid A”, o álbum, “The national anthem” era mais intrincada, quase free jazz graças aos instrumentos de sopro. No palco, a energia do quinteto compensa a ausência dos metais.  Nada havia me preparado para isso. Cheguei com um pé inteiro mais um calcanhar atrás, com medo de me decepcionar. Já aconteceu-me antes, por exemplo, aqui mesmo, na Apoteose, com um David Bowie de radinho de pilha.

Li que o show do Radiohead era “profissional”, no mau sentido, talvez até “frio”. Desde a primeira música, “15 step”, nota-se que é profissional, sim, no bom sentido. No nível do som, na definição do telão, nas estalactites de luz.  Mas frio… “There there” logo prova que não. Percussão quase pura, O’Brien e Jonny batendo tambor com Selway. Claro, sempre haverá quem ache “chato”. Mas para quem tem dificuldade de se relacionar com a tristeza da vida sempre haverá as baianas pernudas e suas canções cheias de onomatopeias. Antes do Radiohead, a temperatura estava estranha para março. O Kraftwerk fez uma versão condensada do show de 2004 no TIM Festival, gélida, coisa de se esperar dos alemães. Antes ainda, Los Hermanos estavam meio fora de forma, mornos, coisa de se esperar de quem está parado há dois anos. Não o Radiohead. Descubro que ele consegue ser cabeça e quente, simultaneamente. Nada havia me preparado para isso, acho que já disse.

O Radiohead plana por “No surprises”, “Videotape”, “Paranoid android”… E comprova, aqui e agora, por que é a mais importante banda de música popular em atividade neste planeta. O termo “rock” só se aplica ao Radiohead como conceito vampiresco, expansionista, não como delimitação musical. Em transe estético, dou 10, nota 10, em todos os quesitos: aparato técnico, garra, repertório, dinâmica, inventividade. No palco como nos discos, as suas músicas nunca terminam do jeito que começam: elas se reinventam.

Na vã tentativa de me preparar para isso, eu tinha ouvido atentamente os dois únicos registros oficiais do Radiohead ao vivo. Primeiro, “I might be wrong: live recordings”, lançado em 2001. Um de seus pecados era ser curto demais, 40 minutos, oito músicas. Todas tiradas de “Kid A” e “Amnesiac”, álbuns siameses separados no estúdio, experimentais, geniais. Todas menos “True love waits”, linda. “O verdadeiro amor espera em sótãos assombrados”? Brrrrr. O outro pecado foi costurar retalhos de quatro shows, Oxford, Berlim, Oslo, Vaison La Romaine. Ficou sem a dinâmica da apresentação ao vivo. O segundo disco oficial do Radiohead ao vivo só veio à luz no ano passado, apenas na Holanda, pelo selo Immortal, mas foi registrado na mesma excursão em que “I might be wrong”. É um duplo chamado “Radiohead rocks Germany 2001″. A banda sacode a Alemanha na noite de 1º de junho, num festival em Nurburg. Traz 22 músicas e, embora às vezes a voz e o violão estejam um tanto à frente dos demais, soa de fato como um show, completo e íntegro. Abre com “The national anthem” e fecha, 108 minutos depois, com “How to disappear completely”. Chega mais perto deste êxtase no Catumbi.

Ainda assim, nada havia me preparado para isso. Até “Radiohead rocks Germany 2001″ aparecer também em DVD, o Radiohead não tinha audiovisual oficial decente, a não ser por… Um show muito das antigas. “Live at the Astoria”, de 1994. Uma coletânea de velhos clipes. “7 television commercials”, de 1998. E um documentário enigmático, sem músicas completas ou entrevistas. “Meeting people is easy”, de 1999. Coerente com esse telão mesmerizador na Apoteose, que esconde mais do que revela os músicos em ação.

Seja como for, o DVD de um show sempre será uma fraude consentida. Um disco de áudio ao vivo é mais fiel a um show do que a sua filmagem. Permite-me viajar, imaginar o palco, recriar, participar. O DVD pode ter som Dolby 5.1, imagem HD, extras, o cacete, mas não me dá esse pancadão no meio dos peitos, não replica a magia da presença física dos caras ali adiante. Após tantos anos, tantas leituras e releituras na faculdade, agora que o Radiohead fecha o show com “Creep”, acho que afinal entendi o Walter Benjamin.

Certas coisas não se reproduzem. Daí essa sensação de eu não estar aqui, de isso não estar acontecendo, de eu ter desaparecido completamente no meio de uma multidão de 20 mil devotos, de o momento já ter passado, bom demais para ser verdade. Então, aquele ali que não sou eu chora e tem aquela convulsão peculiar da cintura para cima, acompanhada de tremedeira no pé direito, um treco que ele chama de dança.

17 | 10 | 2007
“Novo Radiohead destroça classificações de gênero”
Por Álvaro Pereira Júnior

“In Rainbows”, o novo álbum da banda inglesa Radiohead, é uma espécie de plasma sonoro, coeso, orgânico, em que as transições de uma faixa para outra são quase imperceptíveis, como se tudo formasse uma única e esparsa sinfonia. Mais do que parente próximo de “Kid A” e “Amnesiac”, os CD “difíceis” do Radiohead, “In Rainbows” é uma continuação lógica de “The Eraser” (06), o disco-solo de Thom Yorke, líder da banda.

Com poucas exceções -como no caos de guitarras que abre e encerra a canção “Bodysnatchers”-, “In Rainbows”, assim como “The Eraser”, soa como um bric-à-brac digital, canções que vão ganhando forma a partir de elementos mínimos, fragmentos de idéias que o produtor Nigel Godrich recolhe e ordena com coerência.

Pelo que se sabe do processo de composição da banda, Yorke é a usina de criação, enquanto o guitarrista Jonny Greenwood, que tem formação clássica, cuida das harmonias.

A fusão Yorke/Greenwood já foi explosiva, como no apocalipse de cores e texturas de “OK Computer” (1999), o álbum fundamental do Radiohead e um dos mais importantes da história do rock (ou seria da música? Ou, ainda, da arquitetura?). Mas hoje os arranjos vão ficando cada vez mais rarefeitos, e aumenta a distância entre as camadas que formam as canções do Radiohead.

Na autodepreciativa “All I Need”, uma das mais belas faixas do álbum, Yorke canta “Você é tudo que eu preciso/ você é tudo que eu preciso”. Parece estar falando da própria música, dos poucos recursos de que lança mão para construir suas canções resplandecentes. Percussão e guitarra jazzísticas pontuam a faixa “15 Step”, o que reforça o fato de o Radiohead há muito ter destroçado qualquer classificação musical.

Jazz, música clássica, rock e eletrônica se unem para chegar a um todo que é maior do que a soma das partes: algo único, a música do Radiohead.

Em “Reckoner”, Yorke canta no limite de seu registro vocal. Fala das dificuldades da criação poética em “Nude”. E, com nada mais que um piano repetitivo e uma curta frase de percussão, constrói uma das melhores canções de toda a história do Radiohead, “Videotape” (“Você é meu centro quando eu escapo da órbita”, diz a letra).

Seguir as novidades do pop requer cada vez mais tempo e menos espírito crítico. Novos nomes surgem empurrados por tsunamis de hype, para se dissipar sem deixar vestígios ao primeiro sinal de mudança na maré. Nesse contexto, não faz sentido falar em permanência. Quem vai se interessar pelo quarto álbum dos Klaxons? Pelo terceiro dos Cribs? Pela música que o New Young Pony Club vai estar fazendo daqui a cinco anos? Ninguém, e parece que a vida agora é assim.

Mas este já é o sétimo álbum do Radiohead, essa anomalia que insiste em fazer música relevante. No universo digital, conhecer e descartar informação acontece na velocidade de um impulso elétrico. Pois o Radiohead se apropria desses mesmos meios para fazer o contrário -criar e distribuir informação (no caso, música) que realmente importa.

Por enquanto, “In Rainbows”, o primeiro trabalho da banda desde 2003, está disponível só na internet, em www.inrainbows.com. Sem gravadora, sem intermediários. O ouvinte determina o preço. Seja quanto for, será pouco.

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Avaliação: Ótimo

27 | 10 | 1999
Procuram-se prefeitos, prefeitos mesmo
Por Roberto Pompeu de Toledo

Boa parte da aflição dos brasileiros é municipal. Eis uma verdade freqüentemente esquecida, num país rendido ao sonho (e à ilusão) federal. Quase 80% dos brasileiros vivem em cidades. Grande parte deles, em grandes cidades. E no entanto as questões municipais, da limpeza das ruas à conservação dos monumentos, das opções de transporte coletivo ao horário dos parques, passando pelo trânsito, os buracos no asfalto e a coleta de lixo, para não falar na segurança e na poluição, questões que em parte também são municipais, ficam relegadas a segundo plano, esmagadas pela opção preferencial pelos pomposos megatemas – as emendas constitucionais, as reformas, a disputa entre monetaristas e desenvolvimentistas.

Abrem-se os principais jornais, e que se encontra na primeira página? A decisão de ontem do Congresso. A viagem do presidente. A menos que surja um caso de proporções descomunais, como o escândalo da Câmara de São Paulo, os assuntos de política municipal são relegados às páginas internas, lá longe. O federal nos esmaga. Resultado: condenam-se as cidades, o espaço onde verdadeiramente se vive, onde se come, se dorme, se ama e se odeia, a afundar mais ainda, pela desatenção, no processo de degradação que já as vitima.

Estas considerações vêm a propósito de uma informação publicada pela competente colunista Dora Kramer, do Jornal do Brasil, na última terça-feira. Tratava-se de um plano do ex-governador Leonel Brizola. As principais figuras da oposição, como Luís Inácio Lula da Silva, Ciro Gomes, Miguel Arraes e o próprio Brizola, se candidatariam a prefeito no ano que vem – Lula em São Paulo, Ciro em Fortaleza, Arraes no Recife, Brizola no Rio de Janeiro. Formariam assim, nas palavras da colunista, traduzindo o pensamento de Brizola, “uma base de poder estruturada para que, numa próxima etapa, a esquerda pudesse almejar com chance à Presidência da República”.

Ao desleixo com relação às cidades, em especial as maiores, soma-se o escárnio. A conquista do poder municipal, no plano de Brizola, vira mero trampolim para o federal. Claro que isso é tão velho como a política, mas aqui aparece em toda sua crueza, explicitado até as vísceras. A cidade é pouca coisa, território das miudezas. E o cargo de prefeito uma chateação a aturar enquanto não se consegue algo melhor. Na verdade Brizola não está sozinho. Grande parte dos políticos pensa assim, e mais pensa assim quanto mais destacado e influente for.

Deseja-se outro exemplo? Fernando Collor de Mello. Ele se diz candidato a prefeito de São Paulo. Que sabe Collor de São Paulo? Se o soltam na Avenida Paulista, não conseguirá dizer que lado vai para o Pacaembu e que lado para o Paraíso. Que gosto, que paciência tem para as questões municipais? A má-fé começa na encenação da suposta candidatura. Collor finge morar em São Paulo. Invoca o testemunho de um amigo, o empresário Georges Gazale, que diz tê-lo como hóspede em sua casa. Se é preciso invocar o testemunho de alguém, é porque não está muito clara nem mesmo a condição de morador. A candidatura é mera jogada, se não for uma farsa.

Num caso como no outro, no de Brizola como no de Collor, configura-se o desrespeito às cidades. No entanto há, ou ao menos houve, um tipo diferente de homem público – um tipo que revelava vocação para o cargo de prefeito. Que parecia satisfeito e realizado no cargo, e não apenas à espera de outras oportunidades. Não por acaso, eles formam a classe dos grandes prefeitos, aqueles dos quais as cidades não esquecem. Pereira Passos, no Rio, foi um deles. Prefeito ao tempo do presidente Rodrigues Alves (1902-1906), Pereira Passos foi quem rasgou a Avenida Central, atual Rio Branco, e construiu o Teatro Municipal, entre outras iniciativas que deram nova feição à cidade.

Prestes Maia, em São Paulo, foi outro. Prefeito duas vezes (1938-1945 e 1961-1965), abriu avenidas, projetou monumentos e introduziu um plano viário que até hoje define as linhas mestras da circulação na cidade. Pensa-se num prefeito de São Paulo, e Prestes Maia vem à mente. Concorde-se ou não com suas concepções, é um divisor de águas. O último representante dessa estirpe, entre os prefeitos de capitais, talvez seja Jaime Lerner, que, ao longo de três mandatos (1971-1975, 1979-1983, 1989-1992), imprimiu a Curitiba a face que ostenta hoje. Lerner virou governador, mas é ainda, arquetipicamente, “o” prefeito.

Aproxima-se o ano de eleições municipais, e muito se vai ler e ouvir que em São Paulo se travará uma prévia da eleição presidencial, que em Belo Horizonte estarão em jogo os planos do governador ou que em Porto Alegre se vão definir as pretensões de sabe-se lá quem. A febre federal atacará com força, contaminando, diminuindo e talvez engolindo o debate municipal. É pena. Só marginalmente se falará na limpeza das ruas, nos ônibus, nos parques, ou no problema crucial e decisivo – embora poucos se tenham dado conta disso – de como embelezar as cidades.

12 | 06 | 2000
Pra que serve a escola (de novo)
Por Gustavo Ioschpe

A coluna de 1º de maio (“Por que a escola não serve pra quase nada”), provocou reações interessantes. Uma guria foi suspensa da escola por ter distribuído o texto em sala de aula. Um professor de jornalismo passou uma aula inteira tentando mostrar por que a coluna estava errada, para depois mandar seus alunos escreverem redações mostrando que a escola serve para alguma coisa. Ou seja, quiseram só boicotar a si mesmos e comprovar minha tese de que a escola abandonou há muito seu papel de disseminadora de conhecimento, estimulante de curiosidade e chave de libertação das consciências embrutecidas e passou a ser o presídio preocupado em cobrir “o que cai”, em impor suas regras, em doutrinar e sufocar os arredios. Houve também, é claro, muita gente apoiando e contando suas histórias de terror. Parte dos elogios veio dos próprios professores, o que me pareceu meio estranho (o agente carcerário criticando o sistema penitenciário). Mas houve muita crítica interessante, que eu gostaria de debater.

A primeira foi dizer que é ridículo dizer que a escola não serve pra nada, já que nos ensina a ler, fazer contas etc. Claro. Não há dúvida. Estava-se falando aqui mais dos níveis superiores de ensino de segundo grau, que não lidam com as necessidades básicas como a alfabetização. Se não ficou claro, devo frisar que sim, a educação básica serve pra muito, na medida em que transforma uma não-entidade que não sabe ler, escrever, somar, etc. em uma pessoa inserida no mundo.

A segunda foi dizer que a crítica desconsiderava as necessidades das pessoas que frequentam escolas públicas, em condições de miséria, para quem a educação é a única saída. Vale dizer que eu tinha em mente, quando escrevi o texto, a educação de classe média alta, pois não vou ser demagogo e tentar criticar experiências que não vivi. Não morei em favela, não estudei em escola pública, e não sou leviano para comentar aquilo que só conheço por estatística.

A terceira reclamação foi, novamente, dizer que aponto críticas, mas não soluções. Bem, escrevi minha tese de graduação sobre o assunto e teria recomendações suficientes para encher esse jornal. A primeira seria acabar com essa rematada idiotice que é o vestibular. Indo mais fundo, seria criar um sistema educacional mais voltado para quem realmente precisa e parar de dar subsídio político a quem não precisa, acabando com a gratuidade do ensino superior para quem pode pagar e transferindo esses recursos para a educação primária, especialmente para a capacitação de professores, porque a qualidade do ensino torna-se a batalha principal agora que temos mais de 95% das crianças matriculadas no ensino público.

A quarta crítica foi dizer que a coluna mostrava a sua própria implausibilidade por só poder ter sido escrita por alguém oriundo de boas escolas. Tive grandes professores que, sem dúvida, me fizeram crescer muito. Mas, desgraçadamente, foram minoria. Sempre suplantei o que a escola não me dava com leituras e vivências pessoais, e hoje estou convencido de que isso é que realmente faz a diferença. “Al fin y al cabo”, nada supera ou substitui a vontade do indivíduo.

01 | 05 | 2000
Por que a escola não serve pra (quase) nada
Por Gustavo Ioschpe

Sempre me intrigou o fato de que os melhores alunos terminam não repetindo o sucesso escolar vida afora e, ao mesmo tempo, que as pessoas de grande êxito em suas atividades foram, frequentemente, maus alunos, ou pelo menos nada brilhantes. Não são inquietações que me surgiram agora, mas já na época de estudante.

Nessa mesma época, de estudante secundário, comecei a sentir um profundo incômodo com a vida estudantil. Quando criança, tinha muito prazer em ir ao colégio, em aprender aquelas coisas novas todo dia, em resolver mistérios. A educação é o mecanismo de inserção mais poderoso que há: com ela, penetramos no mundo e nos sentimos participantes da nossa realidade. A grande parede de ignorância que nos barra da compreensão do universo vai aos poucos sendo derrubada.

Mas, em um certo momento, lá pelo fim do primeiro grau, o encantamento se quebrou. Não sei se eu é que perdi a ingenuidade, ou se foi a escola que mudou, mas ficou tudo esquemático, mecânico e completamente broxante. A relação com o professor, que antes era de companheirismo e admiração nessa viagem de descobrimento, virou burocrática e antagonística. Pairava no ar o reconhecimento mútuo de que entrávamos em um teatro, onde mestres e pupilos eram atores secundários e o papel principal ficava a cargo da mediocridade, a se infiltrar e dominar tudo. Ela ditava que o nosso papel ali era de fingidores: o professor fingia estar ensinando e se interessando pela inteligência de seus alunos, e o aluno fingia estar aprendendo e absorvendo conhecimentos que lhe seriam úteis.

No fundo, todos sabiam que grande parte do que se ensinava ali era inútil e desinteressante, mas, enfim, caía no vestibular, então o que é que se havia de fazer, né?

Assim, passei, como todos os meus colegas, anos e anos regurgitando o que diziam os livrinhos que os professores nos indicavam. Líamos grandes livros, falávamos sobre grandes personagens históricos, mas o que ficava eram perguntas sobre o enredo, pedidos de descrição de eventos e causas. Nenhuma elucubração, nenhum desejo de ir além do texto, nenhuma tentativa, enfim, de pensar e imaginar. Qualquer tentativa de dizer algo diferente ou pensar o proibido era (e continua sendo) punida com canetaços vermelhos e notas baixas ou, em casos mais severos, conversinhas com orientadores pedagógicos e coordenadores educacionais (nomes infames para cargos que se resumem aos de carcerários do presídio de almas que é a escola moderna).

Assim, o sistema educacional transformou-se numa máquina produtora de mediocridade e resignação, que vai aos poucos filtrando os inconformistas e deixando-os de lado, rotulando-os como “problemáticos”. Matando o espírito questionador, já que qualquer pergunta desafiadora é vista como um desafio à autoridade. Por isso é que os bons alunos não raro têm vida escolar apagada, e os maus alunos se saem bem: fora das paredes da escola, o espírito crítico, a imaginação e a vontade de fazer diferente são fatores indispensáveis ao sucesso.

O que só comprova a impressão de que colégios viraram exatamente aquilo que foram criados para combater: templos da gratificação da mediocridade e da mesquinharia; fortalezas que massacram aquilo que há de espontâneo nos jovens, e os “preparam para a vida”, dando-lhes a garantia de sobrevivência que é, ao mesmo tempo, a garantia de uma vida sem saltos, voltas, dúvidas, explosões, entusiasmos, descobertas, angústias e fascínios. Tudo, enfim, que faz com que a vida valha a pena.

P.S. Antes que o tradicional espírito de porco pergunte se me imagino um gênio incompreendido, confesso que passei minha temporada escolar perseguindo notas altas e me empenhando em ser o melhor da classe, mesmo sabendo a falência moral que isso significava. O que só me entristece e envergonha.

Guarde o nome
Por Arthur Dapieve

Amy Winehouse chama os grandes pelo prenome. Seu primeiro álbum, lançado na Grã-Bretanha em 2003, intitulava-se “Frank”. O tal era brevemente mencionado na letra de separação de “Take the box”: “O sutiã Moschino que você me comprou no Natal passado/ Ponha na caixa/ Frank está aqui e eu não ligo.” Em “Rehab”, faixa de abertura do álbum “Back to black” (lançado mês passado no Brasil, pela Universal), ela avisa: “Eles tentaram me mandar para a reabilitação, eu não vou vou vou/ Prefiro ficar em casa com o Ray”.

Amy Winehouse abriga a birita no sobrenome. Entre “Frank” e “Back to black”, esta londrina branquela de 23 anos atraiu a atenção tanto pela voz inacreditavelmente negróide e curtida quanto pela capacidade de se exceder no álcool e armar barracos. Quando seu empresário sugeriu que ela fosse se desintoxicar numa clínica, foi dispensado, daí “Rehab”. Há pouco tempo, dias antes de ela ganhar o Brit Award de melhor cantora, o vocalista e guitarrista Luke Pritchard, dos Kooks, se aproximou só para dizer que tinha gostado do novo CD, e Amy, sem mais nem menos, mandou ele fazer coisas esquisitas com o rabo.

Tem personalidade, a moça. Ela conseguia agradecer, no encarte de “Frank”, a Sinatra, Ray Charles, Duke Ellington, Sarah Vaughan, Dinah Washington e Beastie Boys, para nomear apenas alguns, sem nem se deixar esmagar pelas referências nem desonrá-las. Não constava da lista outra voz familiar sua, a de Billie Holiday. Natural, aliás, que uma das maiores cantoras da época de ouro do jazz – e, entre as maiores, a de estilo mais peculiar – tanto fascine Amy, Madeleine Peyroux ou Corrine Bailey Rae, sem falar noutras, menos novas, como Nicolette e Shara Nelson, que gravaram com o Massive Attack nos anos 90.

Os agradecimentos do platinado “Frank” indicavam que o disco era jazzístico a ponto de chupar a melodia de “Lullaby of Birdland” no refrão de “October song”, mas também tinha toques inteligentes de rhythm’n'blues e hip hop. Nada disso garantiria a qualidade se não fossem as letras confessionais, argutas e/ou sarcásticas de Amy. Como a da adorável “Fuck me pumps”, retrato da garota que freqüenta as boates com uma única meta: “Nunca perde uma noite, porque seu sonho na vida/ É ser a mulher de um jogador de futebol/ Você não gosta de boleiros/ É o que diz/ Mas você não se importaria com um milionário”. É fascinante como Amy brinca com a letra, qual Blossom Dearie, qual menina (cruel).

As referências são outras no recém-lançado “Back to black”, de título auto-explicativo. Amy decidiu fazer um disco de soul. “Não queria louvar demais o jazz, de novo”, declarou. “Estava cansada da complicada estrutura de acordes e queria algo mais direto. Vinha escutando muitos grupos de cantoras dos anos 60 e queria simplificar o som.” Dreamgirls? É o cacete, diria, com sotaque cockney, esta filha de taxista e farmacêutica, sobrinha de melômanos. Amy não emula a época, ela atualiza o eterno: Supremes, Marvelletes, Martha Reeves + The Vandellas. Faz até pensar numa Aretha Franklin pálida e anoréxica.

Claro, não há novidade nisso. A história da música anglo-irlandesa da década de 60 para cá pode ser contada em seis palavras: cabeludos, brancos, soando, como, bluesmen, negros. Jagger, Van Morrison, Winwood, Bobby Gillespie etc. O mesmo pode ser dito da porção mulher das ilhas, em sete: louras, britânicas, tirando, onda, de, soulwomen, americanas. Afinal, Dusty Springfield (que gravou em 1969 um incendiário “Dusty in Memphis” nos estúdios da Stax) é a avó espiritual de Joss Stone (que gravou em 2003 um impressionante “The soul sessions” entre Miami, Filadélfia e Nova York). Só que Amy, muito a propósito, tem cabelos pretos. Alguns homens preferem as morenas. Mais calor.

Amy recrutou Mark Ronson – filho do falecido guitarrista Mick Ronson, parceiro de David Bowie em álbuns como “Ziggy Stardust” – para dividir a produção com Salaam Remi, veterano de “Frank”. Ronson já havia trabalhado com, entre outras, Macy Gray, Lily Allen e Cristina Aguillera. A duplicação não implicou nenhum exagero, nem temporal (“Back to black” dura pouco mais de meia hora, quase vinte minutos a menos que seu antecessor) nem musical (as dez faixas são limpas, sem serem esparsas). Conforme planejara, Amy foi direto ao ponto. A sensacional “Rehab”, por exemplo, mal ultrapassa os três minutos, na melhor tradição da música pop, e não sucumbe ao peso das sessões de sopros e de cordas.

Na verdade, tão boa quanto “Rehab” é a faixa seguinte, “You know I’m no good”, hino nacional de Amy Winehouse. A batida indolente, maliciosa, meio quebrada, e os metais pesados, à moda da Stax, emolduram o charme bandido do refrão, cantado pela garota que pôs chifres no namorado-quase-noivo: “Eu trapaceei comigo mesma/ Como eu sabia que faria/ Eu te disse que sou encrenca/ Você sabe que eu não sou boa coisa.” Diferentemente da maioria das cantoras de rhythm’n'blues americanas, Amy canta à vera, isto é, dá a cada frase o tom adequado, isto é, não berra monotonamente para mostrar que tem pulmões.

A ressaltar que um grande disco de soul, como “Back to black”, não seria um grande disco de soul se não houvesse um grande baixista de plantão: o americano Nick Movshon, ex-membro do grupo de funk Mighty Imperials e atualmente no alatinado Antibalas, toca em “Rehab”, “You know I’m no good” e noutras quatro faixas. Ele não toca em “Just friends”, homônima do standard de jazz composto por John Klenner e Sam M. Lewis. Não faz mal. Quem está no baixo com molho de reggae é o produtor Salaam Remi. Na canção, Amy provoca o amigo: “Nunca é seguro para nós/ Nem de noite, porque eu bebi”.

Honesta, a moça. Na tocante balada “Wake up alone”, espécie de e-mail aberto aos ouvintes, ela descreve os malabarismos para não pensar no ex: “Tudo bem de dia/ Me mantenho ocupada/ O bastante para não ter de pensar onde ele estará/ Fiquei tão cansada de chorar/ Então, ultimamente/ Quando me flagro, dou um 180º/ Fico acordada, limpo a casa, ao menos não estou bebendo/ Correndo por aí, assim, eu não tenho que pensar em pensar.”

Amy Winehouse colhe flores no próprio pântano e vende numa banquinha em Portobello. Sabe que não basta cantar bem, e Amy canta muitíssimo bem; o que conta pra valer é ter matéria-prima para cantar, e Amy compõe com tesão e sabedoria. Talvez pareça prematuro afirmar que uma menina chiliquenta de 23 anos possui uma obra. Não é não. Se ela morrer de cirrose amanhã, já terá feito algo de belo e útil dessa nossa existência miserável.

Música:
“Que País É Este”, Legião Urbana

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Heródoto Barbeiro

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Lúcia Hippólito

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Juca Kfouri

Atire-se no abismo de The National
Por Álvaro Pereira Júnior

VOCÊ PODE ficar feliz com esta coluna pela dica que vou passar. Ou pode ficar bravo (com razão), pelo toque não ter sido dado antes.

Isso porque vamos falar de “Boxer”, CD da banda The National, lançado em maio do ano passado e criminosamente ignorado por “Escuta Aqui” até hoje.

Imagine os dilemas barrocos de Nick Cave acompanhados pelo Crazy Horse de Neil Young. Atmosfera soturna, padrões obsessivos de baixo e bateria e, principalmente, uma voz grave que parece emanar do abismo mais profundo.

Na definição precisa da revista americana “Paste”, o líder do The National, Matt Berninger, é também um herdeiro “colarinho branco” de Bruce Springsteen. Mas, aqui, a espontaneidade proletária de Bruce é substituída por uma atitude mais pensada, cerebral (no bom sentido). E a New Jersey operária do “Boss” dá lugar ao descolado Brooklyn, região do momento em Nova York, onde o National se instalou depois de mudar-se de sua Cincinnati (Estado de Ohio, meio do nada) natal.

Aliás, foi por causa da “Paste” que finalmente decidi prestar atenção a “The Boxer”. A revista cravou o National na capa da edição de janeiro de 2008, dizendo: “Essa banda fez o melhor disco de rock de 2007. Você sabe quem é?” Confesso que mal sabia.

Há muito tempo, claro, ouço falar deles. Mas temia que seguissem a linha, por exemplo, do Guided By Voices, o chamado “alt country” -a meu ver, pensado e “nerdy” demais. Encontrei, na verdade, algo com identidade própria, que, se é para buscar uma comparação, me lembrou a música profunda de bandas da Nova Zelândia dos anos 90, como o Bailter Space.

O som do National, capiteneado pela voz firme Berninger, escapa das armadilhas do “alt country”. Não é um artefato de mentes de classe média olhando de modo condescendente para a raiz musical popular. É genuíno, adulto. É arte.

CD PLAYER

PLAY – “Boxer”, The National
Escute já. Ou guarde para o dia em que você virar gente grande.

PLAY – “Brainy”, The National
Minha música preferida do CD. “Você sabe que eu guardo suas digitais numa pasta rosa no meio da minha mesa”.

EJECT – “Desejo e Reparação”
Só eu achei esse filme dirigido e editado com mão pesada, artificial, vazio? Com essas credenciais, é bem capaz de ganhar o Oscar…